Hoje eu sou suja e ando vagando por aí, sozinha.
No boteco da esquina, recitei um verso de Bukowski, tomei uma cerveja barata e cantei um dó desafinado com Tom Waits.
Mas nem sempre foi assim. Eu vim de anos e anos de muito glamour. Sou da época que ser rica era sinônimo de ser chique.
Passei pela realeza, mas depois caí na boca do povo. Me reinventei e nasci de novo. Praticamente passei uma borracha no meu passado e comecei a reescrever o livro da minha vida.
A capa é linda, mas muito misteriosa; ninguém até hoje conseguiu decifrar o que nela acontece. Ela muda de tempos em tempos. Tem vez que é rosinha e cheia de flores, depois fica negra e rendada, outra hora cisma em ser gente grande e se enche de tricô.
Mas eu gosto assim. São os ciclos da minha vida, sabe.
Minha nova história teve figuras importantes, gente que é mais lembrada que eu. Acho injusto.
Me tiraram muitos bens, fui roubada, maltratada, exilada durante as guerras e voltei com tudo, mostrando minha força. Sou guerreira também, mereço meu espaço.
Minha história é escrita em linhas tortas, mas confesso que reta ela não é. Já até disseram que eu sou filha do diabo, não sirvo pra nada e sou má influência. Oras, todo mundo pode ser má influência, isso depende muito mais de quem me vê do que de mim.
Da minha vida cuido eu, você é quem sabe se me ama ou se me odeia.
Aliás, eu sou assim, muitas vezes extremista. O básico e o ousado; o eterno e o efêmero.
Já me pintaram de tantas cores que eu nem me lembro mais.
Já me vestiram com tecidos de todos os lugares do mundo e experimentaram em mim as mais diversas texturas.
Eles colocam no papel alguma ideia mirabolante e acham que eu sou obrigada a ser a cobaia. Tsc.
Virei um tal de Frankenstein dos tempos modernos.
Minha vida sempre foi cheia de referências.
Não quero ser pedante, mas sou muito entendida de cinema, música, literatura. Já atuei no cinema, no teatro. Já escrevi livros e servi de inspiração para muitos músicos.
Me identifico bastante com o estilo de vida dos artistas, sempre quis ser assim.
Eu faço samba e amor a noite inteira. Amo essa vida boêmia.
Tem gente que quer me acertar, me colocar nos eixos. Bobagem.
O meu negócio é diversão, e eles não entendem.
Me moldam daqui, me criticam dali. Não ligo.
Ultimamente andam me levando a sério demais, esse é o problema.
Se estou nessa vida a passeio? De jeito nenhum!
Eu quero é tocar na vida das pessoas, e fazer elas se tocarem. Mas não quero que me cobrem, eu não funciono na base da da pressão.
Comigo é assim: devargar, devagarinho.
Eu tenho mil lados, você me vê do jeito que quiser. É como entrar numa sala de espelhos e observar um de cada vez, tranquilo.
Sou absolutamente contra a futilidade, mas totalmente a favor.
Não tente me entender.
Depois de tempos de riqueza, fui sendo deixada de lado. Virei perfumaria.
Aos poucos fui ficando mais popular, o pessoal me conhece mais, mas ainda assim me sinto só.
Por essas e outras que perdi um pouco o gosto de viver, e hoje ando por aí, uma quase-mendiga que todo mundo aplaude.
Não sei bem o porquê.
Volta e meia me pedem pra eu voltar a ser o que era na juventude, mas não tem como. Eu até tento, mas geralmente não consigo.
Tudo o que posso fazer nessas horas é pegar umas fotografias e alguns baús de recordações e distribuir por aí. Mas fazer igual eu fazia? Não dá. Bem que eu queria, mas minhas costas não me autorizam.
Posso hoje estar quase idosa, quase mendiga, quase bêbada. E daí?
Você sabe, me deram o poder da imortalidade, e deixaram um pozinho mágico da juventude, mas não sei onde eu guardei.
Se por acaso você achar, me avise, tá?
Inspiração para o Post: http://migre.me/sxhR
Tags: filosofia de botequim, história

01/04/2010 às 15:13 |
ficou muito bom, super delicinha de ler!
01/04/2010 às 15:16 |
Meina, que texto incrivel!!!! è seu??
Adorei!!!!!!!Lindo mesmo!
bjssssssssssssss
01/04/2010 às 15:25 |
É meu sim. Tô modificando aos poucos, não gostei de algumas partes.
Obrigada!
01/04/2010 às 15:30 |
Qualquer fashionista que se preze tem o DEVER de ler esse teu texto. E tenho dito.
01/04/2010 às 17:14 |
Ótimo texto! ; )))
E um cigarro, por favor. Para acompanhar a minha cerveja barata e queimar uma camiseta verde para sair a la Balmain esta noite: http://bit.ly/azIhR1
01/04/2010 às 17:22 |
BOKOWSKI?
01/04/2010 às 17:50 |
Perdão pelo erro grotesto de digitação, já está consertado. abs
01/04/2010 às 18:22 |
Nem há muito o que dizer… ótimo, bonito e inteligente texto, Fernanda!
01/04/2010 às 20:34 |
Otimo texto,mas nao so esse…tive o prazer de ler outros do seu blog e devo dizer q sao FAN-TAS-TI-COS!! Estou seguindo vc no twitter!!!!Se quiser seguir o meu blog serà um prazer!!
Bjoes de Roma
http://www.nayralaise.com
01/04/2010 às 22:05 |
é engraçado.
seus “tweets” discretos, anunciando o texto-novo.
senti a empatia – de quem escreve e congela atrás da cortina.
expor o escrito é forma intensa de se desnudar. revelar modos de ver, despir-se da máscara neutra.
e aí, que vão achar? porque é isso: quem lê, tece seu particular encontro com as palavras.
não percebemos, todos, as mesmas coisas.
cada um acha o que pode, de acordo com suas vontades e repertório.
e que bom que é assim: pluraliza, deixa o sentido leve, passeante. Sem certezas e mão-única.
há quem encontre um “o” deslocado.
e a gente pensa: pôxa, mas é isso?
assim: cada um acha o que procura.
nisso, fica outra impressão: nossos textos tb não servem em qualquer um.
vale a pessoa experimentar, ver se fica bem nela.
se não rola, a gente agradece a tentativa e tals.
mas sem neura: texto tem sempre uma coisa chamada “leitor ideal”.
o velho safado que o diga…
no fim, é grande bobagem esse meu comentário.
acho só que me aproveitei de um acaso simples pra conversar contigo sobre aquela outra coisa – o “quem lê o que escrevo?”. ALGUÉM lê o que escrevo?
vem daí um desdobramento: bem sab’s que número não é sinônimo de encontro.
e olha só qtos encontros acontecem, manifestos nos comentários suspirantes que apareceram aí!
de minha parte, só posso dizer que teu texto inspira, anima, dá mais vontade de conversar.
e apóia ideia que tenho firme: a moda pode ser pensada de diversas maneiras.
não tem porque insistir num formato, achando que tem jeito certo. acho tão mais gostoso experimentar, deixar a coisa fluir, escolher novos modos de se pronunciar.
como diz Maiakovski: “não há conteúdo revolucionário sem forma revolucionária”.
obrigada pelo “frescor” das tuas matutações!
ósculão!
Lu
@pensandoemmoda
[e note que sigo no texto-caótico -- assim como tu, tenho receios dos desentendimentos brabos. Mas aí é que tá: cada um que escolha como habitar as entrelinhas. De cá, sorrio: afinal, nossas impressões estão se conectando pelo não-dito]
03/04/2010 às 10:50 |
Minha vida sempre foi cheia de referências.
Não quero ser pedante, mas sou muito entendida de cinema, música, literatura. Já atuei no cinema, no teatro. Já escrevi livros e servi de inspiração para muitos músicos.
Me identifico bastante com o estilo de vida dos artistas, sempre quis ser assim.
você arrasa.
03/04/2010 às 14:19 |
adorei o texto :D
ahazou :*
04/04/2010 às 23:52 |
Olá!
Gostaria de parabenizá-la pela qualidade do blog. Textos bem escritos, boas montagens, excelentes referências/citações.
Abraço.
Paula
05/04/2010 às 12:49 |
Maravilhoso, não tem palavra melhor pra descrever!
06/04/2010 às 13:59 |
O texto é seu? Incrível, de verdade!
Beijoss
07/04/2010 às 10:31 |
Sim, é meu o texto.
Muito obrigada aos elogios, não sei o que seria de mim sem esses pequenos feedbacks.